Fraturas totais atingiram 769 de 12927 participantes no grupo vitamina D e 782 de 12944 no placebo. Quem começou abaixo da mediana de vitamina D também não teve benefício1.

15 de outubro de 2026 · 9 min de leitura · Análise Crítica · Evidência alta (avaliação editorial: desenho, risco de viés, consistência, precisão e aplicabilidade)

📸 Poste no Instagram ou 💬 envie no WhatsApp: carrossel e legenda prontos ↓

Em 30 segundos

  • O achado: no ensaio Vitamin D and Omega-3 Trial (VITAL), com 25871 adultos de meia-idade e idosos saudáveis, não selecionados por deficiência de vitamina D, 2000 unidades internacionais (UI) por dia de vitamina D3 não reduziram fraturas totais, não vertebrais nem de quadril em seguimento mediano de 5,3 anos1.
  • A força: certeza alta por avaliação editorial; risco de viés baixo pelo RoB 2, aplicado por nós. A certeza alta vale para fraturas totais; para quadril, o intervalo é mais largo1.
  • O que muda: sem indicação específica, este ensaio não sustenta prescrever vitamina D só para evitar fratura. O resultado não vale para quem tem deficiência, osteoporose ou osteomalácia nem para idosos institucionalizados1.

Contexto

Uma paciente com mais de 55 anos, exames de rotina normais, pergunta se deve começar vitamina D "para fortalecer os ossos", porque a vizinha começou. É uma dúvida frequente. Segundo o próprio estudo, o suplemento é amplamente recomendado para a saúde óssea, mas os dados sobre fraturas vinham sendo inconsistentes1.

A pergunta deste post é direta: em adultos que não foram escolhidos por ter deficiência, a suplementação diminui fraturas? Para responder, olhamos um estudo auxiliar do VITAL, ensaio clínico randomizado (ECR) com 25871 adultos dos Estados Unidos: homens com 50 anos ou mais e mulheres com 55 anos ou mais1. Ninguém entrou por ter deficiência de vitamina D, baixa massa óssea ou osteoporose, o que não significa que ninguém tivesse deficiência: ela só não era critério de entrada1.

O estudo em números

1 New England Journal of Medicine, 2022
DesenhoEstudo auxiliar de ensaio clínico randomizado, controlado por placebo, em desenho fatorial 2×2 (VITAL), com análise por intenção de tratar
RegistroClinicalTrials.gov NCT01704859
Participantes25871 participantes
PopulaçãoAdultos dos Estados Unidos em geral saudáveis: homens com 50 anos ou mais e mulheres com 55 anos ou mais. Os participantes não foram selecionados por deficiência de vitamina D, baixa massa óssea ou osteoporose. Foram excluídas pessoas com histórico de câncer, doença cardiovascular ou hipercalcemia.
DuraçãoSeguimento mediano de 5,3 anos
Intervenção e doseVitamina D3 (colecalciferol), 2000 UI por dia, sem cálcio associado (no fatorial, com ou sem ácidos graxos n-3, 1 g por dia)
ComparadorPlacebo
Desfecho primárioPrimeira fratura incidente: total, não vertebral e de quadril
Resultados principaisFraturas totais: HR 0,98 (IC 95%: 0,89 a 1,08), 769 de 12927 no grupo vitamina D contra 782 de 12944 no placebo. Não vertebrais: HR 0,97 (IC 95%: 0,87 a 1,07). Quadril: HR 1,01 (IC 95%: 0,70 a 1,47). Nenhum com diferença significativa
Risco de viésBaixo, na nossa avaliação editorial com RoB 2 (o artigo não aplica ferramenta de risco de viés)
Financiamento e conflitosFinanciamento público: National Institute of Arthritis and Musculoskeletal and Skin Diseases (estudo de fraturas) e outros institutos do NIH, nos EUA (VITAL principal). As declarações de conflito dos autores estão no site do NEJM

O que encontraram

O VITAL usou um desenho fatorial 2×2, que funciona como dois ensaios rodando ao mesmo tempo com as mesmas pessoas. Cada participante foi sorteado para vitamina D3 (colecalciferol, 2000 UI por dia) ou placebo e, em paralelo, para ácidos graxos n-3 (1 g por dia) ou placebo1. A vitamina D não foi dada junto com cálcio1.

O estudo principal foi desenhado para câncer e doença cardiovascular. As fraturas foram o foco deste estudo auxiliar, com seguimento mediano de 5,3 anos1. Nesse período, foram confirmadas 1991 fraturas em 1551 participantes1.

A resposta: não houve efeito. Fraturas totais ocorreram em 769 de 12927 participantes no grupo vitamina D e em 782 de 12944 no grupo placebo1. Na prática, a proporção de pessoas com fratura foi praticamente a mesma nos dois grupos1.

O hazard ratio (HR) foi de 0,98, com intervalo de confiança de 95% (IC 95%) de 0,89 a 1,08 e P = 0,701. O HR compara, ao longo do tempo, o risco de ter a primeira fratura nos dois grupos. Um HR de 1 significa risco igual, e 0,98 fica praticamente em cima dessa linha.

Os outros desfechos principais seguiram o mesmo padrão1:

  • Fraturas não vertebrais: 721 participantes no grupo vitamina D e 744 no placebo; HR 0,97 (IC 95%: 0,87 a 1,07; P = 0,50)1.
  • Fraturas de quadril: 57 no grupo vitamina D e 56 no placebo; HR 1,01 (IC 95%: 0,70 a 1,47; P = 0,96)1.

Os desfechos exploratórios também ficaram perto do nulo: fraturas osteoporóticas maiores com HR 0,99 (IC 95%: 0,83 a 1,17), pelve com 1,08 (0,64 a 1,80) e punho com 0,89 (0,69 a 1,15)1. Essas análises servem para gerar hipóteses, não para orientar conduta1.

No exame de sangue, o suplemento funcionou. No grupo vitamina D, a média de 25-hidroxivitamina D (a forma medida no exame de rotina) subiu de 29,2 para 41,2 ng/mL em 2 anos, entre os 1347 participantes que forneceram amostra1. O número no exame subiu; o número de fraturas não caiu.

O efeito também não mudou com idade, sexo, raça ou etnia, índice de massa corporal ou nível basal de vitamina D1. Quem começou abaixo da mediana de 31 ng/mL, ou no quartil mais baixo (≤24,0 ng/mL), não teve resultado diferente dos demais1. Só que esse subgrupo tem um detalhe que muda a leitura.

Leitura crítica

O quartil mais baixo não equivale a deficiência grave. Só 2,4% dos participantes tinham vitamina D sérica abaixo de 12 ng/mL, e os próprios autores dizem que o estudo não foi desenhado para testar quem tem deficiência1. Portanto, a falta de efeito nesse subgrupo não responde à pergunta sobre o paciente com deficiência.

Forças. O estudo foi randomizado e controlado por placebo. Cada participante foi analisado no grupo para o qual foi sorteado, a chamada análise intention-to-treat1. As fraturas foram conferidas em prontuário de forma centralizada, por avaliadores que não sabiam o grupo de cada participante: 1991 das 2133 fraturas avaliadas foram confirmadas, ou 93,3%1. O ensaio tem registro público (ClinicalTrials.gov NCT01704859) e financiamento público de institutos do NIH, nos Estados Unidos1. As declarações de conflito de interesse dos autores ficam no site do NEJM.

Risco de viés. Na nossa avaliação editorial com RoB 2, o risco de viés é baixo; o artigo não usa essa ferramenta. A ressalva: a notificação inicial da fratura vinha do próprio participante, por questionário anual, antes da confirmação em prontuário1. Uma fratura não relatada nunca chegaria à verificação. Na nossa leitura, como o estudo usou placebo, é improvável que essa subnotificação tenha sido diferente entre os grupos.

Limitações reconhecidas pelos autores1:

  • Só uma dose foi testada, 2000 UI por dia1.
  • Não houve ajuste para comparações múltiplas nos desfechos secundários e exploratórios, que devem ser lidos com cautela, assim como os subgrupos1.
  • Os resultados podem não valer para adultos com osteoporose ou osteomalácia nem para idosos institucionalizados1.

Um detalhe de desenho merece atenção. Os participantes podiam usar por conta própria até 800 UI por dia de vitamina D e até 1200 mg por dia de cálcio1. Ou seja, o grupo placebo não ficava necessariamente sem vitamina D: a comparação foi de 2000 UI a mais contra placebo.

Validade externa. A população é de adultos de meia-idade e idosos dos Estados Unidos, em geral saudáveis, com 50,6% de mulheres e 20,2% de participantes negros1. Pessoas com histórico de câncer, doença cardiovascular ou hipercalcemia foram excluídas1. O resultado se aplica bem a esse perfil e mal a quem foge dele.

Significância estatística e relevância clínica. Aqui as duas andam juntas em fraturas totais: não há efeito significativo, e o IC 95% de 0,89 a 1,08 é estreito1. O limite inferior, 0,89, marca o maior benefício compatível com os dados, e mesmo ele seria uma redução pequena no risco relativo. Com 1551 pessoas com fratura, é um resultado nulo bem medido, não um estudo pequeno sem poder para enxergar efeito1.

Para quadril, o quadro é menos firme. Com 57 e 56 casos, o IC 95% vai de 0,70 a 1,47 e não descarta um efeito relevante em nenhuma das direções1.

Encaixe no corpo de evidência. Este post analisa só o VITAL e não traz outros estudos para comparação. O próprio artigo descreve os dados anteriores como inconsistentes1. O VITAL acrescenta um teste grande e cego numa população geral, não selecionada por deficiência, justamente o grupo em que a prescrição costuma ser feita "por via das dúvidas".

Na prática

Para quem este resultado serve: adultos de meia-idade e idosos saudáveis, que vivem na comunidade e não foram selecionados por deficiência de vitamina D, baixa massa óssea ou osteoporose1. Nesse grupo, a evidência mostra que 2000 UI por dia de vitamina D3, sem cálcio, não reduziram fraturas em seguimento mediano de 5,3 anos1. Prescrever o suplemento só "para não quebrar o osso" não encontra apoio neste ensaio.

Para quem este resultado não serve, pelos limites que os próprios autores apontam1:

  • Pessoas com deficiência de vitamina D: o estudo não foi desenhado para elas, e só 2,4% da amostra estava abaixo de 12 ng/mL1.
  • Pessoas com osteoporose ou osteomalácia1.
  • Idosos institucionalizados1.

Uma observação nossa, que não vem dos autores: o estudo comparou começar o suplemento contra placebo e não testou a suspensão1. Para quem já usa vitamina D por indicação específica, este ensaio não orienta parar.

Dose: o estudo testou uma única dose, 2000 UI por dia1. Ele não sustenta nenhuma dose para reduzir fraturas nessa população e não diz nada sobre doses maiores, menores ou associadas ao cálcio1.

Segurança: segundo o comitê de monitoramento do VITAL, não houve diferença relevante entre os grupos na incidência de hipercalcemia e de cálculo renal1. Quem tinha histórico de hipercalcemia foi excluído, então esses dados não cobrem esse grupo1. Na nossa leitura, nessa situação a decisão é individual e passa pelo médico.

Imagine a paciente da abertura: mais de 55 anos, sem deficiência conhecida, sem osteoporose. Nesse perfil, a vitamina D3 não mostrou efeito sobre fraturas1. Na nossa leitura, a conversa útil é sobre o risco de fratura dela como um todo, não sobre acrescentar um suplemento.

Sem indicação específica, vitamina D só para evitar fratura não encontra apoio neste ensaio1.

O que ainda não sabemos

O VITAL deixa perguntas em aberto, várias delas reconhecidas pelos próprios autores1.

  • Deficiência real. O estudo não foi desenhado para quem tem deficiência, e só 2,4% dos participantes estavam abaixo de 12 ng/mL1. Ainda não sabemos o efeito sobre fraturas nesse grupo.
  • Outras doses. Os autores reconhecem que só uma dose foi testada, 2000 UI por dia1.
  • Combinação com cálcio. Leitura nossa: como a vitamina D não foi dada com cálcio, o ensaio não responde sobre a combinação1.
  • Osso já fragilizado. Os autores alertam que o resultado pode não valer para adultos com osteoporose ou osteomalácia nem para idosos institucionalizados1.
  • Quadril. Leitura nossa: com poucos eventos e intervalo de 0,70 a 1,47, o efeito sobre fratura de quadril ainda tem margem de incerteza1.
  • Subgrupos e desfechos exploratórios. Sem ajuste para comparações múltiplas, qualquer sinal nessas análises é hipótese, não conclusão1.

A pergunta do título, porém, tem resposta: em adultos de meia-idade e idosos saudáveis, não selecionados por deficiência, a vitamina D3 não reduziu fraturas1.

Sua vez

Uma paciente com mais de 55 anos, sem deficiência conhecida e sem osteoporose, pede vitamina D "para os ossos". Você prescreve, pede a dosagem antes de decidir ou explica que, no perfil dela, este ensaio não mostrou benefício? Conte como você conduz esse caso.

Responda no post da semana no @nutreonbr ou respondendo à newsletter.

Gostou? Compartilhe no Instagram

Capa. Título: Vitamina D evita fratura sem indicação? A palavra fratura está destacada. Texto: Ensaio randomizado com 25871 adultos: 2000 UI por dia contra placebo, 5,3 anos.

Leve este conteúdo adiante

Poste o carrossel de 6 cards no Instagram, já com a referência, ou envie o post para um colega. Cite @nutreonbr.

📸 Postar no Instagram 💬 Enviar no WhatsApp 📋 Copiar legenda

📥 Cards para baixar: 01 · 02 · 03 · 04 · 05 · 06

Ver a legenda pronta

Vitamina D "para fortalecer os ossos" é um pedido comum no consultório. O ensaio VITAL testou isso em 25871 adultos de meia-idade e idosos saudáveis dos Estados Unidos, não selecionados por deficiência: 2000 UI por dia de vitamina D3, sem cálcio, contra placebo, com seguimento mediano de 5,3 anos.

Resultado: fraturas totais em 769 de 12927 participantes no grupo vitamina D e em 782 de 12944 no placebo (HR 0,98; IC 95%: 0,89 a 1,08). É um resultado nulo bem medido. O nível no exame subiu de 29,2 para 41,2 ng/mL; as fraturas não caíram.

A ressalva que muda a leitura: só 2,4% dos participantes tinham menos de 12 ng/mL. O estudo não responde sobre quem tem deficiência, osteoporose ou osteomalácia nem sobre idosos institucionalizados. Para quadril, o intervalo ainda é largo (0,70 a 1,47).

Análise crítica completa, com forças, risco de viés e o que ainda não sabemos: link na bio.

LEBOFF, M. S. et al. Supplemental Vitamin D and Incident Fractures in Midlife and Older Adults. New England Journal of Medicine, v. 387, n. 4, p. 299-309, 2022. DOI: https://doi.org/10.1056/nejmoa2202106. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35939577/. Acesso em: 15 out. 2026.

#vitaminaD #nutricaobaseadaemevidencias #nutricionista #saudeossea #ensaioclinico #leituracritica #envelhecimento

Referências

  1. LEBOFF, M. S. et al. Supplemental Vitamin D and Incident Fractures in Midlife and Older Adults. New England Journal of Medicine, v. 387, n. 4, p. 299-309, 2022. DOI: https://doi.org/10.1056/nejmoa2202106. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35939577/. Acesso em: 15 out. 2026.

Transparência

Conflito de interesse: a Nutreon fabrica e vende suplementos alimentares, incluindo produtos com vitaminas e minerais. Conteúdo editorial produzido com apoio de ferramentas de inteligência artificial. Toda afirmação traz referência, e cada referência foi conferida por checagens automáticas no PubMed e no Crossref (DOI, título, autores, ano e ausência de retratação). Não substitui avaliação individual com nutricionista ou médico. Atualizado em 15 de outubro de 2026.

Como trabalhamos · Encontrou um erro? · Ciência na Nutreon

É nutricionista? Receba o Radar Nutreon e conheça o Nutreon Pro.